Apoiando-se nos relatos dos moradores do abrigo municipal Zacchi Narchi e nas narrativas dos cidadãos da Vila São José, tanto a proposta estética quanto a dramatúrgica, estão direcionadas a explorar o espaço não-convencional, focando essencialmente a historicidade impregnada no prédio – o banheiro público da Galeria do Viaduto do Chá –, local da encenação.

     A escolha do espaço, um banheiro público abandonado numa região central, procura, por meio das leituras que esse espaço propicia – um local de restos e cheiros insalubres – traduzir e evidenciar a temática abordada: a exclusão geográfica e social de parte da população, privando-a não somente dos direitos civis, mas afetando diretamente a sua conduta de ação e reflexão.

     “A libertação da indigência material não se converteu apenas hoje num vazio slogan propagandístico diante da realidade institucionalmente complexa e não-transparente do desenvolvimento tecnocientífico. Sabemos, além disso, que as condições de sobrevivência são cada dia mais duras para amplas camadas sociais das metrópoles industriais e são fisicamente impossíveis nas regiões do globo mais castigadas pelos fenômenos do colonialismo e da espoliação selvagens. A consciência de conflitos catastróficos para a sobrevivência da natureza grava hoje a consciência moderna com uma nova angústica histórica. E aquela visão emancipadora da civilização com que o humanismo científico havia sonhado, desde a revolução copernicana dos céus até a concepção moderna de progresso, foi trocada pela perspectiva do ocaso da história e do homem”. 1

     Partilhamos da idéia de que quando parte-se para um espaço não- convencional, perde-se substancialmente recursos que o edifício teatral oferta-nos. Para suprir essa especificidade, o caminho foi a investigação auditiva, visual e cinestésica. 

     Em decorrência da estrutura do edifício, surgiu uma linguagem estética – o expressionismo –, aprofundada, posteriormente, em outros elementos cênicos.


     “Percebe-se, então, que a busca da linguagem formal tende a dar as costas para a realidade concreta em que envolvem os personagens. Já não é apenas o personagem, agora titubeante, que fala, pois é a própria situação que passa a falar: tudo fala. E acrescente-se que também a fala sofre um processo que a torna abstrata: fragmentada, torna-se passível das mais variadas composições. É essa visão deformada da realidade – visão conscientemente deformadora, que se quer como ato de deformação que está na base do expressionismo, e, por isso mesmo, o trabalho abstrato se faz inerente ao próprio ato criador, ainda que subsista sempre ao menos a moldura de uma realidade transubjetiva, que subsiste por si mesma”. 2

     A partir dessa interferência arquitetônica, o texto, a iluminação e demais elementos cênicos incorporaram essa linguagem estética.  A dramaturgia foi aprofundada na estrutura fragmentada, inserindo tons líricos nos diálogos.  A iluminação foi construída através de latas e lâmpadas incandescentes, iluminando apenas pedaços de imagens. Auxiliam ainda essa iluminação alternativa, a utilização de lanternas, manipuladas pelos próprios atores.

     A fragmentação suscitada na dramaturgia também se estendeu à concepção cênica. Para revelar o enclausuramento social em que vivem, pessoas são mostradas por trás das portas das cabines, aparecendo apenas partes dos seus corpos nos vão superiores e inferiores das portas, obrigando o espectador a se tornar agente criativo, ativo da situação que vê.

     Cheiros, odores e sons são explorados num ambiente totalmente escuro. Água Sanitária, desinfetantes, barulhos de descargas, de eletrodomésticos, revelam que aquele lugar é habitado. E, aos poucos, as trajetórias são desvendadas dentro das cabines sanitárias. 

      Imageticamente, investigou-se na encenação, a linguagem cinematográfica com o intuito de apropriar-se, teatralmente, desta dinâmica: a velocidade da ação, alicerçada pelo conteúdo imagético. Cortes rápidos, proporcionados pela iluminação, valorizam o conteúdo e a frieza das ações. 


1 Eduardo Subirats. A cultura como espetáculo. São Paulo: Nobel, 1989, pp. 37-38
2 Gerd Bornheim. Brecht: a estética do teatro.  São Paulo: Perspectiva, 1976,  p. 37